Terça-feira, 25 de Dezembro de 2007

sou senhor de todos os sentimentos
as palavras que não encontraram auxílio no céu
vêm ter comigo nas horas em que a noite morre
não sei o que existe da chuva no teu olhar
que novoeiro é esse que transforma o teu rosto

o teu rosto

a imagem do teu rosto marcado a carvão
todo o meu carinho de artista apaixonado
encontrar a tua pele em fragmentos da natureza
o papel os teus cabelos
este poema a minha alma

a tua alma

não encontro explicação para esta semana de afogados
tudo muda e no entanto nada muda e sinto-me louco
no entanto
eu não mudo
ainda sei que pedra é esta onde apoio a minha cabeça para dormir
eu sei que gosto de ti

gosto de ti

as certezas que talvez não tivesses
sim preocupo-me
quando o teu silêncio é a tua presença
quando a ausência é o vazio
ainda tantas coisas

tantas coisas

este poema está aqui porque não tenho dúvida
este poema existe porque gosto de ti
este poema existe porque tu existes
és linda
- mesmo que o negues mil vezes
és tantas coisas
- mesmo que não o saibas
és este poema
- a verdade

a verdade

Segunda-feira, 24 de Dezembro de 2007

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Para todos que visitam o Quark Part of Human...

Feliz dia de amanha


e

próspera vida :)

Domingo, 23 de Dezembro de 2007

(título?... Não me surge ideia alguma)

Acabo de descobrir este poeta, este ensaísta, este escritor... nunca sei...
Sim, acho-o agora mesmo.

Achei-o e gosto,

Li este poema e gostei



O AMOR EM VISITA

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas,
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes
ele - imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.

Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.
Ah! em cada mulher existe uma morte silenciosa;
e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.

E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.

- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.

Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza.

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe
a força maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.

Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.

Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te apreendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.

Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.

Herberto Helder

Sábado, 22 de Dezembro de 2007

um brinde. pelo mundo que não mudou apesar dos nossos sonhos. pelo passado que marca o presente e impossibilita o futuro. porque estás em todo o lado. vou partir. disse-te. vou partir. se esticasse o braço, tocar-te-ia. prometo que volto. para casa. mas. onde é casa? que país destruído é este, quantas lágrimas e sangue da minha família estão derramadas por estas ruas? será este o primeiro olhar? após tantas viagens, meu deus. ainda caminho. sabes que vou caminhar para sempre. mesmo contra a corrente, carregando o passado às costas. vou atravessar todas as fronteiras. a névoa não me vai deter. mesmo que esta história não acabe. choro. não tenho fé. tenho desespero. vou continuar. procurar o primeiro olhar. o olhar de ulisses

- um filme de Theodoros Angelopoulos

Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2007

tenho pedaços da alma espalhados
em diferentes níveis da consciência.
acordei com uma aguda dor metafísica
que se reflecte na minha garganta dorida
e na minha pele arrepiada.

o meu peito foi sempre um salão vazio
onde se esqueceram de limpar o pó.
neste momento tenho o peito cheio
- mas o pó ainda guarda estilhaços de vidro
que, quando me lembro deles, cortam.

estou a pisá-los um a um
para que me deixem em paz.

tenho uma inundação dentro da minha cabeça,
às vezes as coisas fazem sentido sem o fazer.
fui visitar o mar.
ele chamou por mim e eu tinha saudades.

apetece-me chorar.
se alguém me rasgar o corpo apenas saem lágrimas.
já não tenho sangue.
apenas sal.

que mundo tão estranho.
onde a felicidade é feita de pedra.

mas avanço.
e estou contente.

Terça-feira, 18 de Dezembro de 2007

sim.
o tempo pára
quando tenho a certeza dos teus lábios.

(as mãos ardem no calor da pele)

e outra vez.
tu.
a tua respiração no meu rosto.

(és o poema que não se pode escrever)

quero dizer-te.
quero dizer-te que.
quero dizer-te

(és tão bonita...)

Sábado, 15 de Dezembro de 2007

não.
a saudade não tem que ser triste.
mas sinto-a fisicamente no peito,
como algo que arranha,
como algo pesado

e a respiração custa.

aproveito a memória para sentir a tua voz,
guardar uma impressão do teu perfume
e relembrar a doce e quente humidade dos teus lábios

e a respiração custa.

não.
a saudade não tem que ser triste.
mas estás longe
(basta que feche os olhos para que estejas longe).

acredita

não estou triste.

mesmo que a respiração me custe.
mesmo que te encontre em cada objecto.
mesmo que este poema.
não estou triste.

apenas tenho saudades.

Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2007

queria escrever alguma coisa do teu rosto.
mas o teu rosto não pode escrever-se.

nem a tua voz.
nem a tua pele.
nem nada.

és demasiado grande para as palavras.

Domingo, 9 de Dezembro de 2007

Karlheinz Stockhausen _ 1928-2007


Autor de genialidade Autor de controvérsia Autor de "Licht"


Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2007

a morte anuncia-se através de paredes vermelhas. o sangue. os pecados. algo como a traição. a esperança existe e não é esperança. a iminência do fim. palavras de desespero. vou morrer. minhas irmãs. vou morrer. e a morte é tão doce como a memória de minha mãe sentada junto ao piano. vou morrer e será como passear num jardim de outono com as minhas irmãs. o fim existe e não é fim. algo como uma certeza. depois do ódio. do nojo. depois das lágrimas e suspiros.

- um filme de Ingmar Bergman

Terça-feira, 4 de Dezembro de 2007

Memória de Mário Cesariny

Na morte do poeta não há morte:
há candura,
um gesto dentro do azul
e o perfil recortado à tesoura.

Na morte do poeta não há morte:
há apenas cansaço
e à despedida, um abraço
para nova aventura.

Na morte do poeta não há morte:
há vida em excesso,
as mãos no sexo
e uma festa rediviva.

Na morte do poeta não há morte:
há viveiros de versões do mesmo tema
e um filosofema
em ferida.

Na morte do poeta não há morte:
há vivências que ninguém adivinha,
poemas pescados à linha
debruçado na torre sanguínea.

Na morte do poeta não há morte:
há só desejo de morrer
para poder viver
cada vez mais forte

António Barahona